segunda-feira, janeiro 22, 2007

Cenas de um garoto suburbano no cotidiano de uma "grande metrópole"

Era o último dia do tão controverso ano dois mil e seis. Estava passando de carro pela praia de Botafogo, uma das paisagens que já se tornou figurante e essencial no dia a dia da minha vida pelo menos nos últimos cinco anos.
O dia estava lindo, era uma daquelas tardes fantásticas com aquele por do sol onde tudo fica alaranjado, cena digna de filme de Woody Allen retratando os belíssimos outonos no Central Park, mas estava aqui bem pertinho na minha tão amada e odiada praia de Botafogo com aquela maravilhosa paisagem que só o Rio de Janeiro consegue nos proporcionar. Porém infelizmente o transito foi ficando lento e meu pescoço inconscientemente com o tempo ganho com a lentidão do trânsito virou-se para o lado direito e me fez deparar com a mais nova e badalada “atração turística” da cidade maravilhosa, e esta estava em perfeita discrepância com a visão do lado esquerdo, que vira e mexe é retratada como um dos mais belos cartões postais do mundo.
Por descaso do meu estabanado e curioso pescoço me deparei com a “atração do momento” rodeada por pessoas solitárias vindas de lugar nenhum contemplando todo aquele peso turístico. Refiro-me aqui a nada mais, nada menos que uma cabine de polícia decorada por intensas crateras oriundas de tiros de fuzis disparados dias antes e algumas manchas vermelhas em torno da mesma.
Confesso que veio crescendo lentamente um sentimento confuso em minha mente e o meu maior medo era que o mesmo conseguisse chegar rapidamente ao meu coração. Aqueles míseros segundos ao lado da manchete da maioria dos jornais mundiais daquele dia já bastou para ofuscar em poucos momentos todo aquele tom alaranjado que aquele belíssimo dia havia me proporcionado, transformando aquele caleidoscópio de cores e vibrações psicodélicas em algo totalmente sem graça, desprovido de tom, como se fosse uma massa de cimento.
Alguns minutos depois daquela bofetada na consciência que acabara de tomar, veio uma sensação estranha, mas parecia ser algo bom. Era como se uma força maior estivesse tentando me mostrar a importância ao fato de estar ali naquele momento, inserido em todo aquele contexto como se eu fosse um mero e pequenino personagem de um mundão completamente interligado (e não sou? Ou melhor, não somos?). E isto me fez lembrar de duas coisas completamente especiais que aos poucos vieram me trazendo de volta a alegria daquele dia e o alaranjado daquele magnífico por de sol. E por coincidência (coincidências existem?) naquele exato momento, meu i-pod incrivelmente pulou de faixa e pude ouvir os primeiros acordes da belíssima “Gooday Sunshine” de Lennon/McCartney.
Pronto! Foi o sinal perfeito para recuperar a alegria, a confiança, esperança e seguir adiante, pois quando não sabemos por qual caminho percorrer, qualquer estrada nos levará até lá. E cá entre nós, melhor ainda quando se está num carro cuja placa é LUZ, ao som dos Beatles num entardecer alaranjado do Rio de Janeiro. Tríade perfeita.
Mas... voltando as duas coisas especiais que relembrei naquele momento trazendo-me aos poucos novamente a alegria que estava sentindo naquele dia.
A primeira era um texto do Drummond sobre o tempo e caiu perfeitamente bem para aquele 31 de dezembro de 2006.

“... Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente...”

A segunda coisa que havia me trazido novamente a alegria, por incrível que pareça, é que me lembrei do fato de estar ali naquele momento, dentro daquele carro,indo em direção ao barbeiro cortar o cabelo. Pode parecer louco ou até mesmo fútil e insensível, mas a cada dia que “corto o cabelo” (ou pelo menos o que restou dele!) volto para casa renovado assim como o texto do Drummond e tento me encarar alguns minutos na frente de um dos meus maiores inimigos:o espelho. Então começo a me auto-bajular e encher de parabéns, por mais uma vez ter a missão cumprida, por mais uma vez ter conseguido cortar o cabelo, pois se sabe até quando conseguirei realizar tal feito. Tenho contando nos dedos.
E parece que tudo tem dado certo na minha vida depois daquele dia, ou sempre deu e eu nunca percebi e dei valor.
Esses 23 dias de 2007 já foram indiscutivelmente melhores que todos os outros 365 dias de 2006, pelo menos para a minha pessoa. Mas ainda faltam coisas a serem acertadas em maiores âmbitos e estas só dependem de cada um de nós e de nossos cabelos (ou pseudo-cabelos), pois como havia dito lá encima todos nós somos pequeninos personagens de um mundão interligado. Mas se nos unirmos com ações pequeninas, quem sabe um dia não conseguiremos acabar com atrações turísticas estilo “cabine de polícia” e conquistaremos novos cabelos?
E se depender de mim, do jeito que as coisas estão indo.... 2007 promete.
Junte-se a nós.

Thiago Valente Rolim de Macedo

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