quinta-feira, março 18, 2010

A Arte não envelhece

Arte não envelhece





O carnaval passou, a segunda-feira voltou a ser chata e cansativa, comecei a minha dieta, o ano de 2010 enfim engrenou e eu com 27 anos me descobri fã de Wison Simonal. Wison quem? Muitos devem estar se perguntando agora.

Admito que para os padrões de leitura do brasileiro, eu sou um nerd. Leio em média de 2 a 3 livros por mês, fora as revistas que assino, o horóscopo do jornal, encartes dos produtos nas prateleiras, sites de putaria da web (esses eu não leio muito, prefiro ver as figuras!), os e-mails chatos do meu chefe e todo o tipo de coisa que vocês possam imaginar. Porém nenhuma leitura me colocou frente a frente com um caleidoscópio de emoções afloradas e sentimentos tão intensos como a biografia de Wilson Simonal. Raiva, inconformismo, alegria, amor, dúvida, rancor, dor, êxtase... isso é só um terço do que senti lendo esse livro e assistindo ao documentário sobre a história do homem.

Tudo isso me fez perceber mais uma vez, o quanto o ser humano não evoluiu. Todos continuam fazendo o mesmo tipo de coisas, seja preto, seja branco, rico ou pobre, cristão ou judeu. Somos a mesma porcaria de sempre, talvez com um pouco mais de recurso, mas a mesma porcaria. A burrice é atemporal.

Nós adoramos esquecer e perdoar tudo quanto é coisa que acontece. Por exemplo, hoje almoçando no Caravelas já me esqueci daquela dieta que citei no primeiro parágrafo, todos já esqueceram que o Michael Jackson era um pedófilo e até já o canonizaram. Já esqueceram que o Collor acabou com metade dos sonhos dos anos 90 e está aí novamente no plenário mamando nas tetas do poder. Esquecemos de absolutamente tudo, até de perdoar. Aliás, se não fôssemos assim, o que seria da indústria do pos-it?

E até meados do ano passado, nos esquecemos de Wilson Simonal. Sorte nossa que para toda regra há uma exceção e o melhor caminho para qualquer tipo de exceção é a arte. A arte não envelhece, ao contrário, ela se renova e nunca se perde por aí. E graças a ela, hoje bato no peito com orgulho, para afirmar com veemência que sou fã de um “crioulinho dedo duro” que passou 30 anos renegado pelo seu próprio país, pela esquerda cega, por um povo esquecido, por uma ditadura infernal, por um jornal (também já esquecido!) chamado “O Pasquim”. Mas não foi renegado pelo ostracismo que lhe foi imposto, o mesmo ostracismo que ousou calar aquele vozeirão até a sua morte. Como somos estúpidos. Esquecemos até de reconhecer os gênios e as pessoas queridas enquanto vivas. Mas a situação se inverte através do que Machado de Assis chamou de “memória póstuma”.

Enfim, mais uma vez a arte foi a resposta, ela sobreviveu, a história foi revisitada e recontada em aúdio, vídeo e texto. Perdi três gigas do meu I-Pod, porém me tornei uma pessoa mais agradável e feliz por ter o prazer de ir ao trabalho numa bela manhã ensolarada cantando “Vesti Azul” e ouvindo com o coração a música de Wilson Simonal.

E para não quebrar o mito de que o ser humano esquece das coisas, esqueci propositalmente de contar a história de Wilson Simonal. Para os que ficaram curiosos, é só correr atrás e entrar neste mundo de emoções e indagações, é só desligar a tv e comprar o livro ou comprar o dvd e ligar a tv novamente.

Enfim, esta história merece ser revisitada diversas vezes para servir de exemplo da beleza e da estupidez humana. O desafio está lançado e procurar na wikipédia é só pra quem é café-com-leite.

Thiago Valente Rolim de Macedo